Primeiro vou largar a bomba, botar lenha, ligar o pavio....
A música não é nova, mas ainda toca e é elogiada pelos radialistas com frases do tipo
"baita som dos Engenheiros...". Leia!
3ª Do Plural (Engenheiros do Hawaii - Composição: Humberto Gessinger)
Corrida pra vender cigarro
Cigarro pra vender remédio
Remédio pra curar a tosse
Tossir, cuspir, jogar pra fora
Corrida pra vender os carros
Pneu, cerveja e gasolina
Cabeça pra usar boné
E professar a fé de quem patrocina
Querem te matar a sede, eles querer te sedar
Eles querem te vender, eles querem te comprar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?
Corrida contra o relógio
Silicone contra a gravidade
Dedo no gatilho, velocidade
Quem mente antes diz a verdade
Satisfação garantida
Obsolescência programada
Eles ganham a corrida antes mesmo da largada
Eles querem te vender, eles querem te comprar
Querem te matar de rir, querem te fazer chorar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?
Vender, comprar, vendar os olhos
Jogar a rede... contra a parede
Querem te deixar com sede
Não querem te deixar pensar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?
Bom, “eles” somos nós publicitários, é claro!
Esse é o típico discurso eclesiástico que promove a culpa do sistema, ratifica estereótipos e mantém viva a lógica da desculpabilização (aquela em que a culpa é sempre do outro).
Sendo prolixo e chato: O homem, desde sempre, buscou conforto, satisfação, felicidade. John LOCKE já disse isso no século XVII. Para este filósofo o homem vive a eterna busca pelo equilíbrio entre prazer X dor. Fazemos o que queremos, fazemos o que precisamos, queremos o que precisamos e amamos fugir daquilo que não gostamos! É mais do que lógico pensar que o capitalismo, o consumismo e o demoníaco materialismo provêm da natureza humana.
Porém, como sabemos, essa crítica à publicidade, como materialização chifrudinha do engodo capitalista, não é nova. A publicidade nasceu do paradoxo da Revolução do Consumo (para quem não sabe o que é isso sugiro que leiam livros de história com mais atenção. Se quiserem leiam Cultura e Consumo de Grant McCracken , Mauad, 2003), que foi a mudança drástica – mas silenciosa – pré Revolução Industrial.
O que de fato acontece é que o avanço tecnológico e das telecomunicações, a globalização e a internacionalização da economia só viabilizam a pulsão humana.
Somos curiosos, intrigados, aventureiros até certo ponto, mas acima de tudo queremos ter controle da situação e poder sobre ela.
Antes de acabar quero levantar mais dois pontos: Para Campbell (2006), o que consumimos, e a forma como o fazemos, diz muito sobre quem somos. Na verdade, segundo ele, não compramos identidades como a crítica aponta, mas vamos às compras em função da identidade que temos.
A outra questão é mitológica. Para quem gosta de mitologia e já leu alguma coisa a respeito – desde as mais conhecidas grega e romana até as mais obscuras como a celta e a nórdica – sabe do que estou falando. A luta entre o bem o mal é abstrata. O pecado e a punição são sempre morais (além de físicos) e há sempre uma razão para tudo. No entanto, se formos analisar à fundo , percebemos que a mitologia é a consagração dos arquétipos e estereótipos. A mulher é paradoxalmente a deusa do sexo e da pureza; o homem é, também paradoxalmente, guerreiro, violento e protetor; os deuses das plantações, comidas e bebidas ( e afins) são gordinhos, tarados e egocêntricos; o mal é sempre “o lado negro”, a escuridão, entre outros......
Essas são as famosas estruturas (do estruturalismo de Lévi-Strauss, ou seja, o
modus operandi do espírito humano).
É a publicidade que faz isso? Isso já está pronto! Apenas fazemos uso. Erramos ao utilizar? Claro que não! Pelo contrário! Por deixar evidente suas intenções (a venda) a publicidade escancara os preconceitos (onde estão as campanhas com deficientes, homossexuais, prostitutas, índios, casais separados, velhas safadas? Em lugar nenhum . E aqueles que já estiveram, foram "convidados" a se retirar). Diferentemente de outras áreas como Direito, Serviço Social, Administração e até Pedagogia, não nos escondemos sob o manto da falsa moral. Escancaramos mesmo e dizemos: isso é assim porque a sociedade é assim, porque você é assim. E isso inclui você, Humberto!
Hello madafaca! O que move a economia é a demanda e não a oferta. A visão geral da realidade está invertida. Bote isso na cabeça e viva melhor!
Por fim quero dizer que
I have a dream de que um dia as crianças vão dizer: “quando crescer quero ser publicitário”.